Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de abril de 2013

Darwin e a prática da 'Salami Science'

FERNANDO REINACH - O Estado de S.Paulo
Em 1985, ouvi pela primeira vez no Laboratório de Biologia Molecular a expressão "Salami Science". Um de nós estava com uma pilha de trabalhos científicos quando Max Perutz se aproximou. Um jovem disse que estava lendo trabalhos de um famoso cientista dos EUA. Perutz olhou a pilha e murmurou: "Salami Science, espero que não chegue aqui". Mas a praga se espalhou pelo mundo e agora assola a comunidade científica brasileira.
"Salami Science" é a prática de fatiar uma única descoberta, como um salame, para publicá-la no maior número possível de artigos científicos. O cientista aumenta seu currículo e cria a impressão de que é muito produtivo. O leitor é forçado a juntar as fatias para entender o todo. As revistas ficam abarrotadas. E avaliar um cientista fica mais difícil. Apesar disso, a "Salami Science" se espalhou, induzido pela busca obsessiva de um método quantitativo capaz de avaliar a produção acadêmica.
No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor intelectual. Eles valorizavam a capacidade de criar uma maneira engenhosa para destrinchar um problema importante. Aprendíamos que o objetivo era desvendar os mistérios da natureza. Publicar um artigo era consequência de um trabalho financiado com dinheiro público, servia para comunicar a nova descoberta. O trabalho deveria ser simples, claro e didático. O exemplo a ser seguido eram as duas páginas em que Watson e Crick descreveram a estrutura do DNA. Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu... Os três pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade (Einstein). Sabíamos que poucos chegariam lá, mas o importante era ter certeza de que havíamos gasto a vida atrás de algo importante.
Hoje, nas melhores universidade do Brasil, a conversa entre pós-graduandos e cientistas é outra. A maioria está preocupada com quantos trabalhos publicou no último ano - e onde. Querem saber como serão classificados. "Fulano agora é pesquisador 1B no CNPq. Com 8 trabalhos em revistas de alto impacto no ano passado, não poderia ser diferente." "O departamento de beltrano foi rebaixado para 4 pela Capes. Também, com poucas teses no ano passado e só duas publicações em revistas de baixo impacto..." Não que os olhos dessas pessoas não brilhem quando discutem suas pesquisas, mas o relato de como alguém emplacou um trabalho na Nature causa mais alvoroço que o de uma nova maneira de abordar um problema dito insolúvel.
Essa mudança de cultura ocorreu porque agora os cientistas e suas instituições são avaliados a partir de fórmulas matemáticas que levam em conta três ingredientes, combinados ao gosto do freguês: número de trabalhos publicados, quantas vezes esses trabalhos foram citados na literatura e qualidade das revistas (medida pela quantidade de citações a trabalhos publicados na revista). Você estranhou a ausência de palavras como qualidade, criatividade e originalidade? Se conversar com um burocrata da ciência, ele tentará te explicar como esses índices englobam de maneira objetiva conceitos tão subjetivos. E não adianta argumentar que Einstein, Crick e Perutz teriam sido excluídos por esses critérios. No fundo, essas pessoas acreditam que cientistas desse calibre não podem surgir no Brasil. O resultado é que em algumas pós-graduações da USP o credenciamento de orientadores depende unicamente do total de trabalhos publicados, em outras o pré-requisito para uma tese ser defendida é que um ou mais trabalhos tenham sido aceitos para publicação.
Não há dúvida de que métodos quantitativos são úteis para avaliar um cientista, mas usá-los de modo exclusivo, abdicando da capacidade subjetiva de identificar pessoas talentosas, criativas ou simplesmente geniais, é caminho seguro para excluir da carreira científica as poucas pessoas que realmente podem fazer descobertas importantes. Essa atitude isenta os responsáveis de tomar e defender decisões. É a covardia intelectual escondida por trás de algoritmos matemáticos.
Mas o que Darwin tem a ver com isso? Foi ele que mostrou que uma das características que facilitam a sobrevivência é a capacidade de se adaptar aos ambientes. E os cientistas são animais como qualquer outro ser humano. Se a regra exige aumentar o número de trabalhos publicados, vou praticar "Salami Science". É necessário ser muito citado? Sem problema, minhas fatias de salame vão citar umas às outras e vou pedir a amigos que me citem. Em troca, garanto que vou citá-los. As revistas precisam de muitas citações? Basta pedir aos autores que citem artigos da própria revista. E, aos poucos, o objetivo da ciência deixa de ser entender a natureza e passa a ser publicar e ser citado. Se o trabalho é medíocre ou genial, pouco importa. Mas a ciência brasileira vai bem, o número de mestres aumenta, o de trabalhos cresce, assim como as citações. E a cada dia ficamos mais longe de ter cientistas que possam ser descritos em uma única frase: Ele descobriu...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O Brasil e seus pensadores

Nestes últimos tempos, graças ao semestre no meu curso que foi inteiramente dedicado a pensar o Brasil desde suas origens até os dias atuais,  deu para se notar como não há uma grande divergência entre os pensamentos dos teóricos mais estudados que procuram entender o povo brasileiro. Todos seguem uma mesma cartilha e tiram suas conclusões praticamente iguais, não trazendo no final nada de revelador ou revolucionário frente ao que outros pesquisadores concluíram. Não temos grandes correntes divergentes debatendo entre si; asssim, dessa forma, é criado no imaginário social apenas uma visão de como tudo ocorreu, mas quando você questiona essas verdades universais com perguntas e dados interessantes, que desmistificam o mito criado, você é dado como um herege que não merece atenção.

O que mais me deixa estarrecido também é o fato da história brasileira ser estudada apenas em grandes tópicos, e olhe lá, pois muitas vezes há apenas um "especialista" sobre o assunto que se torna um Deus, e ninguém procura pesquisar sobre esse tema, já que está tudo resolvido. Mas no final ainda há milhares de coisas a serem pesquisadas referentes a sociedade brasileira, inclusive as que já foram. É preciso reencontrar a vontade de desbravar novos horizontes, para de fato descobrirmos o que o estudo de nossa sociedade nos oferece.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A ciência como ela deveria ser

Bom, estava eu lendo o ótimo livro da história do século XX de Paul Johnson, intitulado "Tempos Modernos - O mundo dos anos 20 aos 80" e lá pelas tantas, me deparo com algo que é digno de ser comentado e o trecho postado aqui:

Stálin odiava os "ocidentais", da mesma maneira que Hitler odiava os judeus, usando o mesmo termo: "cosmopolitismo". (...) A partir de 1948, a física teórica, a cosmologia, a química, a genética, a medicina, a psicologia e a cibernética foram todas sistematicamente remexidas. A Teoria da Relatividade foi condenada não porque (como na Alemanha Nacional-Socialista) Eisntein fosse judeu, mas por razões igualmente irrelevantes: Marx havia dito que o universo era infinito e Einstein havia tirado certas idéias de Mach, proscrito por Lênin. Por trás disso tudo estava a desconfiança de Stálin de qualquer idéia remotamente associada aos valores burgueses ou ocidentais. Ele estava levando aquilo que os comunistas chineses mais tarde chamariam de Revolução Cultural - uma tentativa de mudar, pelo uso aberto do poder de polícia, as atitudes humanas fundamentais em relação a toda uma gama de conhecimentos (p.380-381).

Até onde é capaz de ir a política e a ideologia para satisfazer o ego de um ditador ou de seu ideal? A ciência precisa de indepêndencia da arena política para se desenvolver plenamente. Não digo que cientistas não tenham opções entre sistema A ou sistema B, político A ou político B. É claro que todos têm suas preferências, mas essas preferências não podem de maneira nenhuma alterar o fruto de sua pesquisa. A ciência é feita em base de observação, criação de hipóteses, verificação através de experiências e a predição; se uma hipótese não condiz com o resultado do experimento isso deve ser relatado, e não procurar modificar a realidade para se encaixar no que estava dito.

Infelizmente isso ocorre até hoje. Com a queda do comunismo, outra vertente vem assumindo esse posto, que são os chamados ambientalistas. E suas manchetes na imprensa noticiando as armações de resultados em busca de fundos cada vez maiores para pesquisas vão se avolumando, e as máscaras vão caindo...